Brado-te socorro!

acusoteemeacusas



MORTE da alma!
MORTE do corpo!
VITÓRIA das drogas!
E, permaneces inerte,
ao sopro da omissão,
que cantarola, desafinada,
em prol da liberdade humana,
o fim da humanização!

MORTE da alma!
MORTE do corpo!
VITÓRIA das drogas!
E, nem te apercebes
de que não me posso mais
viver por mim, sozinho,
sem acalentar a desgraça,
ao contracanto do horror!

MORTE da alma!
MORTE do corpo!
VITÓRIA das drogas!
E, nem te apercebes,
de que meu cérebro submergiu,
a partir de enganos seculares,
arqueados à cumplicidade do Mal,
e, de vítima, sou enfim, teu réu!

MORTE da alma!
MORTE do corpo!
VITÓRIA das drogas!
E, nem te apercebes,
de que meu terror foi ignorado
frente ao medo dos demais,
sorumbáticos à sanha insana,
desta submissão ao pecado!

MORTE da alma!
MORTE do corpo!
VITÓRIA das drogas!
E, nem te apercebes,
de que, ao rastro da corrupção,
anjos de luz poetizam a verdade
e, os mortais, certeiros do que buscam,
jamais me pregarão na Cruz, sem ti!

Ah! Senhor Estado Democrático de Direito!
Exsurgiste da cogente viabilização
de um Estado Democrático embasado pelo Direito!
A democracia é elemento ideológico,
de ação do Estado perante seus súditos,
e, se o Direito formaliza e afiança a ordem estatuída,
CUIDA-ME, SENHOR! Faz ouvido mouco ao meu não,
ou seremos morte ao Amor e biltres a atassalhar a Paz!


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Sílvia Mota - "Poeta do Amor e da Paz"
Cônsul dos Poetas Del Mundo em Cabo Frio
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=5615
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Cabo Frio, 8 de novembro de 2009 – 00:25hs.

Ascese

maoserosa


Pelas vias vacantes da vida,
atiram-me flores
que, de quando em quando,
espicaçam-me c’os seus espinhos...

Sorrir? Chorar?
Rezingar, para quê?

Deleito-me ao perfume,
à fartura das rosas
e, acastelo minha paz,
ao veneno dos espinhos...

Sorrir? Chorar?
Rezingar, para quê?

A ter isso ou aquilo,
medo disso ou daquilo,
transcendo... e, nesse abismo...
abrolho rosa... em teu jardim!


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Sílvia Mota - "Poeta do Amor e da Paz"
Cônsul dos Poetas Del Mundo em Cabo Frio
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Cabo Frio, 28 de outubro de 2009 – 14:14hs.

Mosnyoiram, pois é... o Grapete sumiu!









Ah! Grapete... que delícia,
até na cor tem sabor!
Soube que ainda existe,
mas, não é como o de outrora.

O teu poema, saudoso,
deixou-me com água na boca
e uma vontade, arretada,
que, jamais, será sanada,
pela Coca-Cola Zero,
olhando-me, aqui do lado...


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Sílvia Mota - "Poeta do Amor e da Paz"
Cônsul dos Poetas Del Mundo em Cabo Frio
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Cabo Frio, 20 de outubro de 2009 – 23:52hs.

A PAZ não é somente um sonho dos poetas!


As terras por onde vivo
cercam-se por oceanos,
e, para além desse encanto,
existem pontos terrestres,
cujos dedos, quase em riste,
a um nada, tocam o céu...

Encontro, pelos caminhos,
suave perfume das flores
a seduzir bem-te-vis,
que, à liberdade – banal -
rodopiam na alegria...

Encontro, nos arredores,
o verde das cordilheiras,
que, visto de longe, é azul,
num jaez inigualável...
não se funde com o céu,
em respeito à plenitude,
esparzida ao derredor!

As terras por onde vivo
são tomadas por humanos,
criados tão lindos, perfeitos...
mas, vaidosos, arrogantes,
narcisistas, ditadores,
enveredaram, depressa,
pelos vícios da maldade...
e, no tempo, se estragaram,
pela falta de cuidado...

As terras por onde vivo,
seja aqui, seja acolá,
são de Amor e muita Fé,
mas, o Ódio humano, insano,
desequilibra a balança
e, muitos, nem mais se lembram,
do conceito de Justiça!
E essa “coisa” de Justiça,
vinda ao clamor da Igualdade,
recolhe-se, envergonhada,
como se fosse a culpada
pela inversão de valores,
inclinados para o Mal...

Mais arriba, bem acima,
cingidas, em desalento,
Esperança e Alegria,
choram pranto inexaurível,
por receberem a alcunha
de utopia inútil e vã!

As terras por onde vivo,
mostram, por todos os lados,
carne e pele, sangue e pus,
belo e feio, sorriso e lágrima,
discórdia e sabedoria,
ignorância e saber...

As terras por onde vivo,
onde passo minha Vida,
urdem minha liberdade!
Preciso de segurança,
ocultar em cofre forte,
as jóias da minha vaidade!
Fujo ao medo dos ladrões,
ensurdeço ao estampido
de tantas balas perdidas,
jamais forjadas ao mel...

Mas, nas terras onde vivo,
tem valor em extinção,
existe, ainda, intocável,
O MEU CORAÇÃO DE POETA,
guardando – incólume – a PAZ,
a proteger as virtudes,
jogadas, todas, ao léu...
Moram, inda, nessas terras,
muitos outros corações,
poetas, a exemplo do meu...
Inabaláveis, prosseguem,
nesse caminho de sonhos,
achincalhado por tantos!

Enquanto houver, pelo mundo,
coração fidalgo e poeta,
- nem que seja só o meu -
- ou, quiçá, o teu e o meu? -
haverá resposta, alerta,
nascida de um verso rico,
ou de uma rima bem pobre,
talvez, de flor com amor,
ou de sorriso com riso...
Pouco importa o rimar,
pois cresce na acepção,
ao traduzir-se em ação.

Nas terras por onde vivo,
faz-se urgente, difundir,
comprovar, de vento a vento,
o possível renascer
da virtude original,
que propõe aos homens todos,
espalhados no Universo,
um igual senso do AMOR,
ter FÉ - certeza da PAZ!

Se o teu sonho for o meu
e o meu, também, for o teu,
nada será fantasia,
nem mais sonho de poeta!


Sílvia Mota – “Poeta do Amor e da Paz”.
Cabo Frio, 20 de outubro de 2009 – 22:45hs.
A todos os Poetas, no Dia Nacional do Poeta.

Ilusão?

Olho-me ao espelho e observo corpo, rosto e alma:
minha pele, ainda exala um cheiro apetitivo de Flor,
no verde azulado dos olhos trago o dom da Esperança,
nos vincos gravados pelo rosto, Dores e Vitórias,
meus versos, de ponta a ponta, clamam pelo Amor!
E, tu me dirás: “Ilusão! A idade corrompeu-te a razão!”
Mas, o espelho perpetua, na cor do meu baton, a certeza da Paz!


Sílvia Mota – “Poeta do Amor e da Paz”
Cônsul dos Poetas Del Mundo em Cabo Frio.
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=5615
Cabo Frio, 17 de outubro de 2009 – 19:19hs.

Não escolhi ser professora... foi o destino...

Afinei os meus ouvidos
ao som das harpas divinas,
onde, talvez, se escondessem,
os passos do meu fadário!

Busquei em tantos caminhos,
suguei a seiva do chão,
soprei chuva ao paraíso
e me desfiz à ilusão!

Ao procurar, no destino,
os dons que em mim se escondiam,
perdi-me nas flores vermelhas,
dos verdes mares ao céu!

Nada, em nada, servia,
fadada, estava ao vazio...
e, ao buscar meu paraíso,
sorvi fel, num doce inferno!

Tantas maçãs me ofertaram,
tantos figos e amoras,
mas, na boca inda tão jovem,
o amargor fez-se pecado!

Persisti, sempre incansável,
à procura do infinito,
que seguiria, finita,
sem a dor – desilusão!

Fui pintura e som intenso
e, ao canto dos passarinhos,
fui chamada de poeta,
na mais vil das expressões!

Audaz, enfim, afrontei,
as bruxas do meu castelo
e atirei-me, toda, inteira,
às leis da vida em repouso!

Aproveitei cada som
e amei a cada palavra,
o respeito afortunado,
que aos Mestres soube ofertar!

Admirei cada sonho,
entreguei-me, em corpo e alma,
levando os sonhos de lágrimas
prás fontes do meu futuro!

De tanto ouvir em silêncio,
por tanto medo de errar,
cansei os ossos e os poros,
mas vibrei na oração!

Fui menina. Fui mulher.
Fui caloura. Fui aluna.
Fui soluço. Fui estudo.
Fui vitória, em ascensão!

Tempos depois, fui levada,
pelas mãos do meu destino,
a penetrar numa sala,
cheia de gente sorrindo.

Fui entrando, devagar,
tão feliz e, sem tremores,
não sei bem como explicar,
ali, comecei a ensinar...


Sílvia Mota.
Cabo rio, 16 de outubro de 2009 – 00:41hs.

Escolhi o destino dos meus poemas

Quero meus poemas
espalhados pelo chão,
livres! pelas ruas, livres!
Que de galho em galho,
salpiquem flores de Ilusão,
por todos os vilarejos!

Quero meus poemas
nus de preconceitos,
mas, vestidos de Amor!
Que repletos de Paixão,
nunca temam o teu olhar
nem se percam aos teus gracejos!

Quero meus poemas
soltos pelos ventos,
sem margens a contê-los!
Que repletos de Paz,
embelezem teu coração,
a partir dos teus desejos!


Sílvia Mota – “Poeta do Amor e da Paz”
Cabo Frio, 15 de outubro de 2009 – 23:07hs.

Eu e as Cataratas na Foz do Rio Iguaçu



Se pudesse impregnar-me com a força das tuas águas,
e lacrimejar com elas o verde sonho dos meus olhos,
nenhuma lágrima vadia e sensabor invadiria meu destino,
a devastar-me as matas virginais, em nome do amor!

Se pudesse violentar-me, descer, vertiginosa, das alturas
e jorrar nesse ruído insano, que assusta e encanta,
nenhum sofrer inóxio alcançaria a timidez da minh’alma
e nem me jogaria, alquebrada e louca, nunca, ao chão!

Se pudesse ser a paz que escorre dessa selvageria,
que se alastra ao espanto de cada olhar que te admira,
nenhuma sôfrega inconstância venceria meus medos,
pois ao sabor de todos os obstáculos seria, como és, perene!

Se pudesse misturar minha beleza à tua e na leveza do céu,
em uníssono à maldade da terra, continuar pura e viva,
nenhuma ofensa adentraria os mistérios dos meus ouvidos,
pois seriam mansos e afáveis às veleidades satisfeitas!

Se pudesse invocar o verdejar dos caminhos que te levam a desaguar
naquele recanto de paz, onde a força do sol, o refúgio das nuvens
e as delícias dos ventos acalantam teus momentos de exibição ao mundo,
suplicaria aos céus, ser tua essência, para unir-me, em ti, ao Universo!


Sílvia Mota – “Poeta da Paz e do Amor”
Cabo Frio, 14 de outubro de 2009 – 23:02hs.

Estupro!

Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!
Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!

Eu disse NÃO e feriste!
Eu disse NÃO e efluíste!
Eu disse NÃO e decaíste!
Eu disse NÃO e usufruíste!
Eu disse NÃO e fecundaste!
Eu disse NÃO e achincalhaste!
Em meus temores, eu te disse NÃO!
Em meus desgostos, eu te disse NÃO!
Em meus torvelinhos, eu te disse NÃO!
Mas, teu crestar, ao meu NÃO disse SIM!
E a ralé, mordaz, fez um SIM do meu NÃO!
Não mais sei de mim, ou se meu NÃO foi um SIM...

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 13 de outubro de 2009 – 17:28hs.

Às minhas crianças, no Dia das Crianças!

De onde surgiram esses seres, encantados,
que trouxeram à minha vida tal vigor?
De onde desceram? De qual paraíso?
Que deuses são esses, aos quais me prostro
e declaro, em voz altiva, o meu fervor?
Serão Anjos da Paz? Serão, talvez, Pecados?



Qual o segredo da fé inigualável,
que me abastece, enlanguecida,
só por sabê-los ao meu lado?
Qual o mistério, indecifrável, que me faz
ser doce e frágil, aos seus suspiros,
mas, forte e intensa, ao acudi-los?



Qual a chave deste amor imarcescível,
que me corrói o peito, ensandecida,
só por me pensar a perdê-los?
Qual o canto sublime, que escuto ao luar
e, amanhece, junto com as estrelas,
perfumando-me as manhãs, aos seus sorrisos?



Ah! Filhos! Quão doces e lindos filhos!
Desvendarão o amor, a fé, a força e a glória
que sinto por assim chamá-los, talvez, um dia!
Ah! Filhos! Quão adorados filhos!
Compreenderão este amor, que hoje lhes parece insano,
quando embalarem nos braços, a sorrir, meus netos!


Sua mãe, Sílvia Mota.
Cabo Frio, 12 de outubro de 2009 – 22:43hs.

Meu país, meu Brasil!


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Olho o horizonte desse país
e perco-me em devaneios...
Ah! Minha Pátria Amada, Brasil!

A um primeiro olhar
- em preto e branco -
consigo, tão somente, soluçá-lo
na tristeza dos meus versos...
Mas, a um segundo olhar
- verde azulado –
brinco de roda e rodopio feliz,
num amanhã azul, de prados verdejantes...

Olho o horizonte desse país
e perco-me em devaneios...
Ah! Minha Pátria Amada, Brasil!

Anseio e peço e choro e clamo,
que, nos confins magníficos,
dessa terra exuberante,
a igualdade, agora decantada,
nesse clamor por Justiça,
seja cunhada em nossa história
e, o quanto antes,
por nós mesmos...

Onde se encontrará o utópico país que imagino
e que, por ora, encontra-se longínquo dos meus versos?


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 12 de outubro de 2009 – 21:31hs.

Século XVII, hoje?

Estancaste o tempo!
Ventos frágeis de sonhos quebradiços
expungiram da tua passagem
as pegadas dos deuses,
firmadas, propositalmente,
para impetrares o presente...

Estancaste o tempo!
Aquelas punições execráveis,
aos pecados inexistentes,
dilaceraram, em tormento,
as faces culpadas dos inocentes,
cujos fantasmas ainda te perseguem...

Estancaste o tempo!
Berras ao vento, em alto som,
a feiúra da beleza constatada
e maculas o pudor dos bem-amados,
por trazeres no corpo e na mente
uma insana incompetência...

Estancaste o tempo!
A hostilidade do teu ruído,
teme a evolução do pensamento,
cujo maior deleite – quase excitante -
é sacudir o preconceito às cinzas
e exorcizar a inoperância do passado...

Os tempos mudaram, senhor!
Sob leis e decretos eloquentes,
registrados ao fel da inveja,
sob juízos covardes e camuflados,
jamais alcançarás meus significados:
serão pecado em ti, jamais em mim!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 11 de outubro de 2009 – 17:42hs.

Fugaz pensamento sobre o Ontem e o Hoje

Por vezes, quedo-me a pensar nessas coisas diferentes entre o mundo de hoje e o de ontem...

Escuto a juventude atual tão livre... e relembro a minha, repreendida tão somente por sentir amor, quanto mais, pelo ato de amar...

Escuto a violência de hoje nos ecos das balas perdidas... e, a voar, perco-me no tempo, até sentir-me queimar nas fogueiras do proibido falar...

Não sei... não sei no que pensar... Algo mudou, que jamais deveria ter mudado. Algo mudou, que urgia mudar. Mas, sei e sabemos todos, que existe algo mais que não mudou, mas que merece ser mudado o quanto antes... Mas, o quê?!!

Encontro resposta somente no referencial ético humano que vai e vem, através do tempo e do espaço... E, nesse embalo, preocupa-me o futuro, porque, perto ou distante, inexoravelmente, será o resultado da soma do passado com o presente...


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 10 de outubro de 2009 – 20:33hs.

Escolho morar onde mora o pecado

Reservada a mim, minha graça te encanta,
mas, a força do meu sonho te espanta...
Nada anseio fazer, nem ambiciono mudar,
pois minha essência é honrada e santa.

Se te ofendes, a me ver passar,
sem te preocupares com o meu pensar,
mudo-me de lugar... sou leve...
posso voar mais alto...
e nas grandes altitudes,
(re)encontro outro lugar...

Meio homem ou mulher,
meio animal ou flor,
meio sol ou chuva,
meio deserto ou mar...
- sou tudo - ultrapasso os raios de sol,
aninho-me no infinito da Poesia...

Aquilata teus sarcasmos inúteis,
ou te prostarão ao fedor da inveja fria.
E, se – desnuda - não me queres ver,
jamais deves mirar o céu c’os olhos nus,
por onde noite e dia e madrugada adentro,
coloco-me a plantar nudez ao vento...

Ditosa, moro aqui, neste lugar intenso,
somente aos deuses e poetas reservado...
Nesse Eden pecado, onde a nudez é pura
- no qual ninguém se afronta ou chacoteia -
posso dançar, tão livre, ao canto dos meus versos:
sem medo – posso estar - entre poetas nus!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 10 de outubro de 2009 – 19:50hs.

Pena de Morte à Pena

Que cena!
O povo condena
a pena serena,
tão plena,
de Helena!

Que cantilena!
Em dezena,
centena,
um som de hiena
ressoa na arena!

Linda verbena!
Morta na arena,
a pena, tão plena
de Helena...
Que pena!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 7 de outubro de 2009 – 22:55hs.

Eu sou linda! Eu me amo! Todos me amam!

Meu nome é Sílvia Mota. Tenho 57 anos.
Sou morena, olhos verdes, 1:66m de altura, com um corpo – hoje - nem magro e nem gordo, mas do jeitinho que a maioria dos brasileiros aprecia. Preciso enunciar o que eles gostam? Acredito que não... (rs) Como todas as mulheres, desejo emagrecer mais um pouquinho, para arrasar naquele vestido vermelho estonteante ou naquela sedutora lingerie negra, com fendas atravessando as coxas grossas, até quase mostrar as “covinhas” da virilha. Rugas... bem, como passei por um emagrecimento muito rápido há alguns anos, as maçãs do rosto não mais permanecem firmes, ao meu gosto. Apresento aqueles vincos bobos nos cantos da boca. Bobos, mesmo, pois não descobri utilidade nenhuma para sua existência! Sobre a minha boca, ainda continua charmosa... e atrativa, segundo opiniões alheias. E, claro, acredito no que me dizem! Além disso, sabe sorrir, sinceramente. O contorno dos olhos ainda não apresenta aqueles pezinhos de galinha temíveis. Se existem, não os enxergo! Meu olhar... dizem... ainda provoca emoções. Também, não fico a contestar essas opiniões. Acredito e pronto! A testa possui uma marca de expressão, entre os olhos, herança de tantos anos de leitura incessante. Meus cabelos são um grande problema, pois estão mais escassos do que antigamente. A cada stress, caem um pouquinho e preciso correr para os endocrinologistas, na ânsia de resolver o problema. E resolvo... até o próximo stress... Na maioria das vezes são revoltos, pois não gosto de penteá-los da forma convencional, fazendo escovas e tudo o mais que, normalmente, uma mulher adora. Os seios, com o tempo, optaram por não mais olhar tão alto - ficaram menos orgulhosos - embora sadios e sem nenhuma estria. E, eu acho isso uma glória! Os braços traduzem-se no poder das minhas mãos, através das quais tudo concretizo: do amor à poesia! O abdomem continua no lugar e, nele, o que mais adoro é o meu umbiguinho, tão redondo e profundo, na altura da cintura! Meu bumbum é um caso à parte, pois sempre foi a maior atração de mim. Não sei defini-lo, até mesmo por pudores femininos. Minhas coxas são do tamanho certo, modéstia à parte; meus joelhinhos são arredondados (não gostava disso quando jovem) e tudo vai descendo, passando por canelas de miss (como se falava à nossa época), até alcançar meus pezinhos número 36. Gosto de me vestir à moda cigana, com vestidos longos, bordados ou com partes rendadas. Adoro seda e tecidos finos. Nunca uso tênis! Sapatos altos deixam-me a acreditar que sou o máximo e nenhuma atriz, por mais poderosa que seja, suplanta-me, nesses momentos! Gosto de calça jeans, porque realçam meu corpo, mas não as uso frequentemente. Às vezes, fantasio-me de advogada e dizem que fico muito interessante. Olho no espelho, gosto, mas, particularmente, isso não faz a minha cabeça...

**************************************

Meu nome é Sílvia Mota. Tenho 57 anos.
Sou brasileira poeta, patriota, mulher, mãe, fêmea, advogada, professora, pintora e musicista. Ah! O que mais gosto de mim é o meu ser mulher-mãe-poeta! Tanto, tanto... que meus filhos tratam-me como uma mamãe-poesia, meus alunos cognominaram-me a professora que faz do Direito um poema e, meu último amor, chamou-me de mulher-poesia! Emociono-me ao ouvir isso! Tão bom! Sou mãe de três filhos lindos, por dentro e por fora! Todos os três escolheram a carreira jurídica. Juro que não “forcei” nada. Mas, acredito que minha conduta ética perante a vida, sempre conciliando a Justiça e o Direito ao Amor, influenciou-os. E, que filhos maravilhosos possuo! Amam e são amados.

Casei-me por duas vezes. Com o primeiro marido, aprendi a esperança constante e a paciência da espera. Aprendi a entender a beleza do amanhecer e a aplaudir, à tardinha, o Por do Sol em Ipanema. Descobri minha beleza à luz do seu olhar, que me laureava. Fomos jovens meninos; fomos homem e mulher. E, no meio de tanta dificuldade financeira, alcançamos a felicidade, só por estarmos ao lado, um do outro, todos os dias. Chamava-me, carinhosamente, de “Silvinha”, ou de ”carinha enferrujada”, em razão das sardas que trazia no rosto. Admirou o verde dos meus olhos e a beleza do meu corpo. Do nosso jardim encantado, trago as flores de mim: nossos meninos dourados e encantados. Mas, como todo encanto tem fim, se não alicerçado na maturidade, tudo acabou... e fui/fomos infelizes. Coloquei culpa nos contornos do corpo que, aos meus olhos, já não mais eram tão belos... Acabei... acabou...

Com o segundo marido, fui rainha sem poder. Amei-o, talvez... como jamais tenha amado alguém... perdi quase tudo, por ele... Após a conquista, nada mais queria. Somente a mim. Fez-me sua boneca encantada, absorvendo todos os meus desejos e realizando-os, somente, através dos seus próprios desejos. Em matéria de mulher, não fui eu, nem fui ninguém. Mas, arraigada ao desejo infinito de ser feliz, aos 42 anos, voltei a estudar e me fiz. O casamento findou... Não guardo mágoas nem dores desta época. Em razão dele, cresci. Cresci, para fugir da infelicidade. Mas, outra vez, culpei as carências físicas do corpo e até o meu olhar verde que lhe causava tantos ciúmes!

Depois disso, dois namorados, namorei. Engrandeceram-me a vida. Amadureci. Acordei ou recordei - no meu pensar - a beleza da mulher-fêmea e poeta, através do respeito, admiração e desejo que me devotaram. Nunca fiquei sem relacionamentos amorosos no meu destino. Sou mulher de poucos amores, mas tão intensos, que duram um infinito inteiro, enquanto duram... e sofro muito, quando se eternizam na minha eternidade... Amei e fui amada.

Hoje, preciso estar só. Por opção. Uma vida tão intensa merece o cuidado do conhecer-se a si mesma... Através da Poesia, descubro-me em cada canto do meu ser e, em cada recanto (re)conhecido, me encanto! Sou alma, espírito e corpo! Estou só. Não sou só.

Aos olhos do meu filho mais velho, sou Fênix!

Poderia contar-lhes tantas coisas mais... mas seria necessário um livro inteiro... talvez... uma enciclopédia, intitulada Amor e Fé! Sim, porque, em todos os momentos, o que me sustentou foi a procura pelo Amor e a certeza insubstituível de que sou responsável pelas minhas alegrias e pelas minhas tristezas! Nesta seara: sou Causa e Efeito. Nenhum deus ou nenhum ser humano é responsável pelas minhas derrotas. Se erro e/ou perco, assumo as responsabilidades. Por outro lado, minhas vitórias... essas vicejam do meu exercício contínuo em busca da Felicidade!

Em todos os momentos difíceis, lembro-me da frase escrita pelo Buda Original Nitiren Daishonin: “O inverno nunca tarda em se tornar primavera”. E, prossigo.

Pois é, sou isso aí... Sílvia Mota... e contabilizo 57 primaveras.

Mas, perguntarão os leitores, o que motivou essa mulher a expor-se assim, abertamente, em corpo e alma, ao olhar dos leitores?

Escrevo esse texto, porque hoje, às 9:46hs da manhã, liguei meu computador e fui brindada com uma mensagem belíssima escrita pelo nosso querido Poeta Marcial Salaverry. Busquei-a no Site da Magriça, para aqui realizar meu comentário, mas não a encontrei.

Escrevo-te, querido poeta, ao som da música anexada à referida mensagem e isso faz com que meus olhos permaneçam marejados de lágrimas, até agora. À nossa época de jovens, as lágrimas borravam as folhas de papel, inscritas a caneta tinteiro. As folhas eram jogadas fora. Iniciava-se a carta novamente. Ou, então, os borrões serviam de ilustração às dores do amor descrito. Hoje, nossos orvalhos caem sobre o teclado e somente precisam ser enxugados de quando em quando. A escrita não é interrompida. Tudo mais fácil do que antes... Mas, os sentimentos verdadeiros permanecem iguais, perenes.

Marcial Salaverry, enalteceste a mim e a todas as mulheres! O que descobri, sozinha, através de tantas dores, reafirmaste, em poucas linhas: que a beleza da alma resplandece a tal ponto, que se espelhará, para sempre, no exterior! Por tanto tempo, contaminei-me à cegueira de tantos cegos! Ao olhar-me através dos outros, acreditei no que não existia. Ao perceber que somente valorizavam-me a beleza do corpo, sucumbi e fiz ouvido mouco ao clamor puro e belo da minh’alma!... Talvez, o mundo careça de homens com a tua sensibilidade...

Por tal razão, querido amigo poeta, o título desta postagem, nasce em tua homenagem. Ao retroceder no tempo e olhar-me ao espelho - hoje pela manhã - além do meu corpo, entrevi minha Vida e, posso afirmar que atingiste minha alma, a ponto de, conscientemente, bradar, para que possas escutar-me: “Eu sou linda! Eu me amo! Todos me amam!”

Segue, abaixo, tua mensagem. Peço-te perdão, se perdi a formatação, mas assim como nós - as mulheres decantadas na tua carta de amor - o que vale aqui... é o conteúdo.

Obrigada, querido poeta!

Passo a palavra ao Poeta Marcial Salaverry.

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Beleza Feminina

Muito se fala sobre a "beleza feminina". Li um pensamento que achei sensacional: "Ser bela, é ser bela por inteiro, no continente e no conteúdo, no exterior e no interior. Ser sábio, é saber valorizar o todo."

Quantas mulheres conhecemos que tem uma beleza física esplendorosa, mas no interior são vazias. Elas passam, e não deixam marcas. Mas aquelas que deixam marcas profundas e perenes em todos nós, são as mulheres cujo interior é digno de nota.

Exemplificando: porventura, existiu mulher mais linda do que a Madre Teresa de Calcutá ? do que Anita Garibaldi ? do que Joana D'Arc? Existem tantos exemplos que seria difícil enumerar todas. Essas mulheres, de extraordinária beleza interior marcaram sua passagem pelo mundo, e serão sempre lembradas. Em contraponto, existiram milhares de mulheres
formosíssimas de quem jamais ouvimos falar. Marcaram sua época e nada mais.

A beleza física é herdada pela genética. A beleza interior é adquirida com o passar do tempo. Recomendo às belas jovens, que procurem rechear seu interior, pois a beleza física fenece com o tempo, e se vocês não cuidarem do espírito, não terão mais nenhuma maneira de atrair a atenção sobre si. Na mesma medida que a beleza física fenece, a maturidade vai revelando a beleza interior das mulheres. E é exatamente essa beleza que prende os homens, pelo menos os sábios.

A melhor maneira de se ver e sentir a beleza feminina é pela Internet, pois primeiro conhecemos o conteúdo das pessoas. De minha parte, tenho conhecido virtualmente mulheres belíssimas (pelo menos no meu ponto de vista). As mensagens delas recebidas são dignas de nota; algumas são poetas (tenho lido coisas lindas), outras são mulheres de ação, que se dedicam à criação de sites verdadeiramente sensacionais que existem pela Internet afora, outras, são pessoas que simplesmente gostam de se comunicar (e o fazem muito bem). A companhia virtual de todas elas, sem nenhuma exceção, é uma das melhores coisas do dia a dia.

Então, amigos, é essa a beleza que conta. Claro é que, quando à beleza interior, se alia a física, fica agradável tanto à mente quanto à vista.

A grande maioria concordou com minha opinião sobre a REAL beleza feminina. Lógico que tenham havido vozes discordantes. Afinal, toda a unanimidade é burra, ou falsa. Aos que acham que a beleza física é fundamental, posso dizer que concordo em parte, pois como fonte de atração, claro que a beleza física é mais chamativa. Todavia, um bom observador sempre procurará ver além do físico. Procurará descobrir, digamos, uma chama interior que denuncie um bom conteúdo, se aquela beldade será capaz de prender a atenção por mais do que uma noite. Claro, para os que procuram apenas uma companhia eventual, o físico é primordial (até que a rima não ficou mal). Um encontro, um adeus. Nesses casos tem que haver a atração física. E é só o que importa.

Vamos ver a passagem dos anos. Aquela jovem tão bela, agora é uma senhora de meia idade, menopausada. Se ela só cuidou do físico, sem preencher seu interior com algo de bom, será uma frustrada a se olhar no espelho, lamentando a juventude perdida.Todavia, se
ela se preparou internamente, se tem um conteúdo bom, certamente ao se olhar no espelho, vai admirar cada ruga, cada adiposidade, sabendo que é querida por muita gente, por ter sabido manter através do anos o seu brilho interior. Aquela que foi uma "jovem luminosa", agora é uma "senhora luminosa", admirada por sua capacidade, por seu "brilho interior".
E continuará linda aos 40, aos 50, aos 60, aos 70, aos 80 e mais anos.

O importante, crianças, é manter a beleza espiritual intacta. Ela perdura para sempre. Portanto, minhas lindas "coroas", nunca lamentem a beleza juvenil que se foi. Ela foi substituída, e com vantagem, pela beleza que vocês souberam manter através dos anos, ou seja, a beleza de seu espírito, que permaneceu jovem e lindo.

Esta mensagem é dedicada a TODAS as mulheres que, ao olhar no espelho, souberem dizer: VOCÊ É LINDA, EU TE AMO, TODOS TE AMAM.

As flores do meu jardim


Homenagem ao pai dos meus filhos: Arnóbio Felinto.

Aos teus encantos,
nasci, eclodi,
medrei em ti...
fui a rosa cor-de-rosa
e, nos teus sonhos, airosa!

Do perfume sacrossanto,
evolado do teu canto,
fisgado ao meu encanto,
criaste, lá dentro de mim,
três sementes, naturais...

Com o tempo, ventos fortes,
falta d’água, adubo fraco,
enfraqueci... tu murchaste...
voaste, ao vendaval,
replantado noutros sonhos.

Naquele jardim tão florido,
germinado em tanto amor,
ouvi minha solitude
e, nas angústias do mundo,
fiquei plantada na dor...

Mas, ao lado, inda fraquinhos,
três botões, bem pequeninos,
deixaram rolar pelos caules,
quase a escondê-lo de mim,
o orvalho da saudade.

Ao sentir aquele apelo,
ensinei-lhes muito amor,
adubei-os para a paz,
lavei-lhes, no orvalho pranto,
toda a mágoa, em doce canto.

Cresceram fortes, sadios,
nossos pequenos botões,
amando cada semente,
espargindo alegria,
sem nunca esquecerem de ti.

Ensinei-lhes a beleza
do nosso amor de outrora,
imunizei cada espinho,
engrandeci o carinho
nascido deles por ti!

Certa vez, contaminada,
pelo vírus da maldade
e, na tristeza do adeus,
entreguei, aos teus cuidados,
o nosso lindo florir!

O tempo foi-se, num encanto,
e tudo foi se arrumando...
tristezas, dores, pesares,
enterrados, quase mortos,
no fadário dos caminhos!

Hoje, todos, um a um,
cinco flores perfumadas,
florindo no mesmo arrebol!
Nós dois - origem de tudo,
Eles – as flores de nós...
a cada qual - um jardim!

Sílvia Mota.
Aos casais que se separam, mostrando-lhes que, independente do sonho de amor findar, em prol do crescimento sadio dos filhos, pode-se viver dignamente. E, que vale a pena, jamais guardar rancor! Por nós, pelos filhos... e pela sensação de Amor e de Paz que, agora, paira no ar...
Cabo Frio, 26 de setembro de 2009 – 13:54hs.

sagrada ou sacrílega?

A Antiguidade te sacralizou, puta sagrada,
mas o homem inumano te ofendeu...

O empresário enfeitou teu colo com jóias caras e raras,
para depois desonrar-te aos seus pés.

O camponês aliviou em ti seu esperma de lavoura,
depois, virou para o canto e dormiu, extenuado.

O bronco abusado supriu sua fome nos teus buracos todos, domou-te no chão
e teu coração dilacerou com o bastão da ignomínia.

Os meninos... Ah! Esses contemplaram os bicos dos seios
e se masturbaram sem te tocar, espantados com o volume da tua bunda.

As mulheres execraram tua imagem em cancro,
mas, invejosas, ainda te arremedam, em vão, aos seus maridos.

Em Jorge Amado foste prostíbulo de amor, repouso e prazer,
mas, nesse enleio, despojou-te, o poeta, do corpo e da humanidade.

Christine Delphy desvendou nos teus dotes um agenciamento social,
apropriado e usado pelo grupo dos machos de plantão.

Na reflexão de Simone de Beauvoir foste um bode expiatório,
epítome de todos os esboços da escravidão femínea.

A poesia de Drummond te consumiu, arreganhou teus dentes
e te chamou de puta quente.

Van Gogh, delirante, enviou-te a própria orelha cortada,
num desejo insano de te eternizar na culpa.

O imaginário social te justifica, sempre, como necessária relação social
e, assim, como utilidade mercantil, ultrapassas tempo e espaço...

Pela história, percebo – e nem sou cristã –
somente Jesus te perdoou e te fez amor,
mas, o mundo cristalizou-te os sorrisos, ignorou-te o passado,
pouco se importou com o teu presente
e saboreia, antecipadamentre, a morte do teu futuro.

Tão múltiplos sentidos carregas no teu manto, sagrada puta!
Tão múltiplos, que me perturbo e me pergunto: quem és?
Procuro-te no bíblico ópio da multidão aventureira
e te encontro na banalização do estupro!
Procuro-te aventureira difamada
e te encontro na violência agudizada da alma que só quer amar em paz!

Mas, por tudo e por onde te esquadrinhe,
respostas aos desatinos cometidos,
não encontrarei nos papiros de outrora,
nem no registro de cada tela ou poema,
nem nas canções que atravessam os destinos,
nem em todos os sonhos empunhados ao prazer...

As querelas entre ações e reações,
entre perguntas e respostas,
que contradizem o meu pensar...
a diferença de tudo, parece encontrar-se
no SER e no SENTIR do próprio Homem!
Aí, nesse recanto impérvio - essência da criação humana -
onde nem eu ou nenhum outro poeta conseguiu jamais adentrar...

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 3 de outubro de 2009 – 14:43hs.

Reverência à diversidade de crenças



Ateu
- alheio aos teus enigmas -
ouço os deuses
do teu silêncio
e acato tuas crenças
cultuadas à virtude.

Ateu
- herege aos teus sons –
aguço os ouvidos
à tua verdade
e não vocifero contra
o que me soa falso.

Ateu
- incrédulo aos teus cantos -
trilho meu caminho
casto de arrogância
e não sucumbo ao mal
do preconceito.

Ateu,
- descrente do teu poder -
respeito as diferenças
ao entender-te Outro
e busco em teu olhar
a flama da sabedoria.

Ateu!
- convicto da tua humanidade -
não careço ofender-te,
pois, se cultuas o Amor,
curvo-me, em respeito,
frente ao teu deus.

E, nem por isso,
deixo de ser Ateu.


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 24 de setembro de 2009 – 17:01hs.

A lua

Desnudo-me a ti, lua enfeitada
de mil olhares loucos e apaixonados;
deixo fluir nessa cascata branca
o gozo negro de um malditoso amor...

Sacio-me em ti, lua encantada
de sonhos mágicos a fulgir no céu;
procrio em ti o meu chorar perdido
e enveno de sonho este viver tristonho...


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 24 de setembro de 2009 – 14:52hs.

O caminho

Existe no meu destino
um caminho...
jamais predeterminado
por divindades superiores
ou por medos interiores...

Existe no meu destino
um caminho...
escolhido por mim,
rebentado no meu feitio de amar,
onde ao ódio não restou lugar...

Existe no meu destino
um caminho...
escolhido por mim,
resistente às invejas mundanas,
imune ao vício das soberbas caravanas...

Nesse caminho trafego... a pé... altiva!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 24 de setembro de 2009 – 14:27hs.

O macho e a prostituta

Permito que cerres os olhos
enquanto te fodo toda,
pois não desejo enxergar para nada além de mim!

Permito que emudeças
enquanto bato na tua alma,
pois não desejo que sonhes ao meu berro de prazer!

Permito que sejas deusa
enquanto te chamo de minha puta gostosa,
pois, nesse momento... ah! nesse momento, és tudo!

Permito que, depois do meu gozo,
corras para dentro de ti e que chores e esperneies,
pois estarei, nesse momento, bem longe de ti!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 19 de setembro de 2009 – 14:41hs.

Um poético silêncio...

Que este meu desejo incondicional de Amar
e de estar em silêncio com minha poesia;
que este meu desejo de Paz, sem precedentes,
nunca se acabem, nunca...
mas nunca te enganem.

Não é solidão de uma poesia inútil,
nem de alma carente,
nem tampouco a paz de uma aposentada
que se deita na rede rendada da preguiça
e se balouça ao ranger da inutilidade...

Correspondo-me, diariamente,
com a agonia do mundo em desalinho
e com a inefável graça do mundo natural.
Nas acepções todas que possam cingir meu verso,
assisto à morte e celebro a vida.

Sou mais bravura, após meus versos.
Sou mais ação, após meus versos.
E, nesse cataclismo de mudas emoções,
sou Titã e sigo e prossigo - imarcescível -
como POESIA, AMOR e PAZ!

Não te preocupes, pois ouvirás o meu silêncio!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 19 de setembro de 2009 – 11:28hs.

Narcisa, num espelhar sem fim...

Quero-te menina,
geniosa,
quando mentirem prá ti.

Quero-te mulher,
vaidosa,
quando vestires carmim.

Quero-te femínea,
charmosa,
quando sonhares por mim.

Quero-te musicata,
harmoniosa,
quando vibrares por mim.

Quero-te poeta,
sestrosa,
quando falares de ti.

Quero-te pintora,
famosa,
quando criares sem fim.

Quero-te jurista,
habilidosa,
quando fugirem de ti.

Quero-te consorte,
honrosa,
quando jurares por mim.

Quero-te nutriz,
extremosa,
quando parires por mim.

Quero-te rameira,
fogosa,
quando bulirem em ti.

Quero-te amante,
audaciosa,
quando sugares por mim.

Quero-te amor
cor-de-rosa,
quando te amarem em mim.

Quero-te...


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 16 de setembro de 2009 – 15:58hs.

Meus gritos e meu silêncio

Nasci!
Nasci e gritei!
Gritei pelo ar que me adentrava a garganta,
num ritual dorido e curioso!

Cantei!
Cantei e gritei!
Gritei pelas descobertas que me reptavam,
num acenar de sonhos!

Amei!
Amei e gritei!
Gritei pela dor que me violentava virgem,
num travestir de amor!

Pari!
Pari e gritei!
Gritei pelas primaveras que me traziam flores,
num rebolar divino!

Sofri!
Sofri e gritei!
Gritei pelas injustiças que me cortaram flores,
num calunioso poder!

Morri!
Morri e gritei!
Gritei pelas flores que se queimavam todas,
num vácuo depressivo!

Voltei!
Voltei e calei!
Calei todos os meus gritos!
E, desta vez, somente desta vez, me fiz ouvir...


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 16 de setembro de 2009 – 14:11hs.

Noite de inspiração gay

Noite – se és fêmea, não sei... só sei que o sou!
Vejo-te macho, macho em alvoroço
e me entrego ao teu céu... teu negro céu...

Noite – se és macho, não sei... neste momento o sou!
Vejo-te fêmea, fêmea no cio
e bolino tuas estrelas... teu brilho firme...

Noite – se és dúbia, não sei... neste momento o sou!
Penetro-te nas incertezas, te encontro e te quero
e, macho ou fêmea, te poetizo toda... num estro gay!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 12 de setembro de 2009.

Absinto da insignificância

Como Drácula ao crucifixo,
humanos medíocres são poltrões à verdade!

O medo do fracasso é inerente ao covarde
e, o arbitrário, seu verbo fedorento.
A inveja insidiosa é intrínseca ao inerme
e, sem antídoto, seu veneno lhe envenena.

Como Drácula ao crucifixo,
humanos medíocres fogem à luz do dia!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 5 de setembro de 2009 – 21:53hs.

AGOSTO/2009

faustosa pornógrafa

Ensaiei obscenidades
e ocultos fetiches.
Como numa meretriz enferma,
pintei teus lábios de sangue,
na ânsia de abafar de mim
tua ridícula anemia.

Ensaiei obsessões
e cenas de canibalismo.
Como numa zona do cais,
lavei-te os perfumes naturais
e, no afã de injuriar-te,
salpiquei cheiros estranhos no teu chão.

Depois, num ato insano, rameira perfumada,
permiti que homens estúpidos a deflorassem
sob meus olhos concupiscentes...

Foi assim, Orbe Terra, foi assim,
que ao roubar tua juventude, explorei teus encantos
e te joguei, indigente, aos meus pés... quase morta...


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 23 de agosto de 2009 – 23:13hs.

sonho! AMO! sonho!

Sonho contra as muralhas
e espero que exterminem de mim
a mesquinha rosácea da guerra.

Sonho contra as muralhas
e destaco nas gotas de chuva
o suor da verdade aviltada na Terra.

Encorajo-me no que fui e sei o que sou
neste sonho bonito e aguerrido,
que me retira o precipício da inércia.

Com faro animal busco na noite escura,
o sabor do medo silente e quase morto
no ressonar dos excrementos humanos.

Transformo o corte ferino das espadas
em comida de beijo, quente e forte
e sacio as bocas magras de horror.

Altero cada espaço macambúzio
em recinto majestoso de esperança,
onde as fugas desoladas farão ninho.

Subo aos céus e, pelas estrelas trafego
a semear meus versos de amizade
aos berros todos que se estupram na dor.

Filtro e infiltro no lombo das ventanias
este desejo de PAZ que me alucina
e suplico aos deuses que a esparjam no ar!

Com insistência.
Sonho!
AMO!
Sonho!

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 23 de agosto de 2009 – 22:13hs.

fé e força


minhas mãos em oração,
desejos no coração
e um mantra a bendizer
a pureza do meu ser;
ao lado, forte, meu cão.

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 4 de julho de 2009 – 22:17hs.
Publicado no Portal Poético Luna&Amigos: http://www.lunaeamigos.com.br/varal/varal29ano8.htm

obra inacabada... felizmente!

Sou mãe e mulher,
artista plástica, musicista, poeta e jurista.
Não consigo e não quero desvincular-me de nada.
Sou tudo isso, tudo junto. Sem hierarquização.

Mãe e mulher,
faço de todos os meus dons,
a razão de viver.

Jurista,
escrevo o Direito num poema
e pinto a realidade fática inspirada nas leis.

Poeta,
transmuto-me em Lei Universal, sou causa e efeito
e, em cada palavra, pinto meus sonhos.

Pintora,
desvendo nas telas o colorido esfuziante da vida,
que fascina minh’alma, como jurista e poeta.

E, nesse embolado todo,
entre ser e não-ser, entre ter e não-ter,
crio e aperfeiçoo uma sinfonia inacabada,
obra mais importante de mim:
eu, comigo mesma!

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 14 de agosto de 2009 – 16:36hs.

autofagia

devoro-me tuas invejas
devoro-me tuas traições
devoro-me tuas injustiças
devoro-me teus sarcasmos
devoro-me teus desamores
devoro-me teus desenganos
devoro-me tuas perseguições
devoro-me tuas cafajestagens
devoro-me tuas achincalhações
devoro-me tuas incompreensões
devoro-me teus desentendimentos
devoro-me tuas incompetências
devoro-me tuas intransigências
devoro-me tuas acomodações
devoro-me teus açodamentos
devoro-me teus preconceitos
devoro-me tuas truculências
devoro-me tuas corrupções
devoro-me tuas irreflexões
devoro-me tuas falsidades
devoro-me tuas covardias...

e, quando, então,
tua morbidez,
tua incultura,
tua sujeição,
tua inépcia,
tua falácia,
teu ser bobo
se glorifica
e me crê
doída,
ferida,
jugulada
e vencida
ao teu açoute...
vomito-me teu desamor inteiro
e teu mal se refaz no chão
- em seiva -
da qual renasço,
vingo e frutifico
E TE SOU PERDÃO!

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 11 de agosto de 2009 – 12:31hs.

Ao meu querido irmão, “i”, no dia do seu aniversário

Sabes exatamente o ilimitado espaço
que tua vida ocupa em minha vida;
sabes que meu coração enamorado
tem em ti um dos seus eternos namorados;
sabes da impossibilidade de descrever
toda a ternura e todo o carinho que te dedico...

Sabes o quanto sinto e o quanto tenho saudade
da nossa pureza de meninos;
sabes o quanto me magoa tua tristeza,
o quanto me surpreendo com tua força
e o quanto desejo estar ao teu lado
nos momentos fraqueza e nos momentos sorriso...

Sabes o quanto entendo e admiro tua arte
e tudo o mais que vagueia pela tua alma;
sabes da nossa cumplicidade inacabável
e, conquanto saibas do nosso infinito, aceitas nossa finitude...
Sabes o significado correto dessas lágrimas
que, neste momento, escorrem no meu rosto
e quase afogam meu coração...

Sabes mais ainda... sabes que, talvez, por este universo afora,
sejamos mais do que duas simples almas de irmãos artistas...
Talvez, sejamos, quem sabe...
almas gêmas que se perpetuam no infinito?


Beijos,
Sil.
Cabo Frio, 3 de julho de 2009 - 22:56:13hs.

síndrome do pânico

dor
medo
extremo
incerteza
mente em solidão
albatroz da morte em furor


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 4 de julho de 2009 – 23:02hs.

Eu-arte sou assim...

Eu-arte sou deus,
crio vida
e transcendo
a pureza do meu sonho.

Eu-arte
sou demônio,
crio morte
e fraquejo
à dor do meu pesar.

Eu-arte
sou anjo,
crio fidúcia
e recupero
o som do meu sorriso.

Eu-arte
sou mulher,
crio força
e reescrevo
a luz do meu futuro.


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 27 de junho de 2009 – 17:43hs.

Eu metáfora

Eu semente de rosa
sou vida,
vermelho,
pureza,
e descoberta.

Eu botão de rosa
sou ilusão,
alegria,
barulho
e sorriso.

Eu pétala de rosa,
sou beleza,
procura,
encontro
e desencontro.

Eu rosa
sou genetriz,
jardim,
cantiga
e amor.

Eu espinho de rosa
sou mulher,
tristeza,
solidão
e dor.

Eu perfume de rosa
sou fênix,
poesia,
saber
e sedução.

Eu rosa!
Eu vida!
Eu sonho!
Eu beleza!
Eu mãe!
Eu mulher!
Eu fênix!
Eu metáfora,
cio de morte,
poesia da vida!


Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 22 de junho de 2009 – 7:50hs - Sala de aula vazia.

sem metáforas

Corpo,
qual patrimônio imediato,
nobre e natural
dos mais fiéis desejos.

Mente,
qual catedral inexplicável
de sonhos e de mágoas,
dolente esfera de irreal cobiça.

Humano,
complexa estrutura,
DNA e regras biológicas
à busca de individualidade.

História,
qual prolapso eterno,
passado e presente
a rastejar nas pistas do futuro.

Educação,
processo dinâmico
de esforço e ação,
por azinhagas do mundo.

Ética,
solidário encargo
da vontade e da razão,
na saga dos sentidos.

E, nesse embolado todo,
de corpo e mente,
humano e história,
educação e ética,
te sobressais tu
e te constróis ou destróis
e és qual deus ou qual satã
e és como se fosses um quase tudo...
e és como se fosses um quase nada...


Sílvia Mota.
Dedicado aos meus alunos do Curso de Fisioterapia – Disciplina Humanização em Saúde.
Cabo Frio, 16 de junho de 2009, manhã, segundo tempo. Prova em paz.
(Sucessão plurimembre: condensar todas as idéias expressas na composição)

poeta inerte

humanos... trilhões de humanos,
numa civilização humanitária
que se afoga num espaço cruel e desumano...

e, eu, poeta-humana,
a me sentir um albatroz-errante,
cujas crias são alimento
de marinheiros perdidos
que mastigam na carniça
seu desapego à natureza...

e, eu, poeta-tisana,
a me sentir vereda triste e inútil,
cujas calçadas veiculam
bocas de fome em berro
que fazem do meu verso um nada
e me deixam num lugar nenhum...

e, eu, poeta-insana,
a me sentir baldia nesta marcha,
cujo tempo inexorável
se registra neste mesmo instante
e me desfaz em concubina
que elege a vida-inércia como amante...

e, eu, poeta-morta,
a me sentir escárnio libertino,
cujo hálito fedorento
me converte em coisa nula
e me faz volatizar vencida
numa ignota fuga do depois...

humanos... trilhões de humanos,
numa civilização insossa de poetas-eu
que se fazem letra morta e que nas letras morrem...


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 14 de junho de 2009 – 3:56hs.

êxtase poético

Li seus versos...
Suaves e fortes!
Puros e lascivos!
Reais e mágicos!
Um tudo isso tudo,
num idílio
de beleza e sedução!
És poeta fascinante...
e eu, agora,
leitora tua, encantada...

Com meu carinho e respeito,
Sílvia Mota.
Homenagem aos versos da Poetisa Delasnieve Miranda Daspet de Souza, Embaixadora Universal da Paz - Genebra - Suiça - Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix. Embaixadora para o Brasil de Poetas del Mundo.

metafísica do amor

o amor,
na cadência do verso,
não se prende...
transcende;
pelas sendas do sonho,
não se esquece...
permanece;
nas paralelas
assimétricas
da vida
não se perde...
se ajeita,
faz ninho
e se renova
numa trilha sem fim...


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 12 de junho de 2009 – 1:25hs.
Resposta ao desafio de José Roberto Abib, no Site da Magriça:
“Por que o amor, quando enquadrado nos versos, mal se sente tão dono de si? Por que se esquece ou se perde, nas paralelas assimétricas de veredas sem fim?”

o quê calou a minh’alma?

Não calou a minh’alma o pranto da vida,
nem o triste infortúnio de se ter e não ter.

Não calou a minh’alma a ausência do ouro,
nem a boca sem beijo e de baton sujada.

Não calou a minh’alma o aleivoso sonho,
nem o sexo sem sexo em noite não dormida.

Não calou a minh’alma o cobertor rasgado,
nem a pele que enxota minha pele em fogo.

Calou a minh’alma o curió perseguido,
o desespero insano da criança faminta,
o rugido da mulher que se estupra no escuro,
o golpear do ingrato nos cabelos brancos,
o vilipêndio da fé em tornos de amargura,
o desencanto do amor e o drogar dos sonhos
que se corrompem por si e se matam assim...
sem esperança ou flor... em dor... em dor...


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 10 de junho de 2009 – 2:06hs.

fim da vida

Que veredas são essas,
onde as árvores se cortam num abalo brusco,
onde a chuva se nega a matar minha sede
e o sol desistiu de enxugar meu pranto?

Que veredas são essas,
onde o ar esfria e esquenta e gela e morre,
onde meu rosto se desfaz em estrume
e a crueldade se apossa de mim contra mim?

Que veredas são essas,
onde a Terra se vai e se esvai em tristeza,
onde a flora despida se aninha de medo
nos braços da fauna estribada no horror?

Que veredas são essas?
Há caminhos de fim nessas eras e matas!
Que desastres são esses?
Há maldade sem grito e agonia no ar!

Se me nego eu e te negas tu a obrar,
o extermínio vem e nos cala, em silêncio...


Sílvia Mota.
Dedico este poema às dores caladas do meio ambiente...
Cabo Frio, 7 de junho de 2009 – 23:29hs.

subjetividade lixo da contemporaneidade

corpo,
prisão da alma,
destruo-te no anseio
de libertar meu sonho...

corpo-rosto,
acessório,
que te retalho e estico:
simulacro da juventude!

corpo-boca,
fumante,
que me alicia e fede:
paradoxo sensual!

corpo-peito,
descartável,
quero-te em redefinição:
prótese defeituosa!

corpo-ventre,
assassino,
niilismo sem ética:
és berço mundano!

corpo-bunda,
moldável,
respiro-te em malevolência:
travesti da perfeição!

corpo-genitália,
pecado,
te esfacelo e reconstruo:
fênix da mentira!

corpo-máquina,
excesso,
me és porto e deriva:
parto de arte em perigo!

corpo-desejo,
ferido,
singular ou múltiplo:
és leito sem sujeito!

corpo-virtual,
falsário,
me és lindo e perfeito:
dádiva de fotoshop!

sexo-virtual,
inerme,
sou texto sem contexto:
prazer sem ter!

corpo-eletrônico,
cibercorpo,
se teu chip estragar:
jogo-te fora!

corpo,
prisão da alma,
destruo-te no anseio
de libertar meu sonho...

mas... que sonho?!!

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 19 de maio de 2009 – 19:26hs.

homens!

Qual o homem – esse deus pensante -
que nunca se fez oração
na boca de uma mulher?

Qual o homem – esse ser errante –
que nunca se fez caminho
nos trilhos de uma mulher?

Qual o homem – esse ser nefando -
que nunca se fez passado
nos sonhos de uma mulher?

Qual o homem – esse ser garrido –
que nunca se fez passivo
noa braços de uma mulher?

Qual o homem – esse ser perdido –
que nunca se fez encontrar
nos beijos de uma mulher?

Qual o homem – esse ser pecado –
que nunca se fez sentido
na lingua de uma mulher?

Qual o homem – esse ser segredo –
que nunca se fez verdade
no colo de uma mulher?

Qual o homem – esse ser audaz –
que nunca se fez menino
na cama de uma mulher?

Qual o homem – esse ser parido -
que nunca se fez um filho
no ventre de uma mulher?

Qual o homem?
Qual o homem?
Qual?...

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 4 de maio de 2009 – 16:46hs.

encontros e confrontos

Vivi tão grande beleza,
na aurora doce da vida!
Da vida, senti os arrebóis,
nos arrebóis, ouvi cantos
e, nos cantos... mil encantos!

Vivi tão forte emoção,
na primavera dos sonhos!
Nos sonhos, fui loba-mãe,
na loba, pequei em fraqueza,
na mãe... me vi só beleza!

Vivi tão grande paixão,
no verão da longa lide!
Nas lides, vivi fartura,
na fartura me arruinei,
me arruinei... mas restaurei!

Sinto tão vultosa paz,
no outono desta peleja!
Nas pelejas, me conchego,
no aconchego me refaço
e nesse fazer... me faço!


Sílvia Mota.
Cabo Frio, 2 de maio de 2009 – 16:00hs.

meno(s) pausa...

Não pares agora, avança!
Não peças esmola de amor,
que esse pedir, é perdido!

Se teus ideais
não se tornaram reais,
acende tua história,
sapeca a preguiça...
que sejas pecado,
que sejas candura,
que sejas beleza...
cruza o presente
e alcança um futuro de paz!

Se teus reais
não se tornaram ideais,
fantasia tua vida,
enflora as florestas...
que sejas cheiro,
que sejas toque,
que sejas fragor...
desmente o passado
e besunta de mel teu sorriso!

Não pares agora, avança!
Não peças sonhos pequenos,
que esse pedir, é perdido!


Jogos paronímicos.
Sílvia Mota.
Cabo Frio, 29 de abril de 2009 – 4:36hs - madrugada.
Dedico este poema a todas as mulheres da minha faixa etária que não fazem pausas inúteis na vida. Como diz minha amiga Maria Clarice: "[...] mulheres 100 pausas!"

poemas da juventude em flor

Na tristeza dos teus versos
não exibes a “frieza do ar pesado”,
mas a beleza de uma jovem alma...
Na tristeza dos teus versos
esconde-se a pureza do amor...
queres algo mais leve e santo?

Não estranhes meu olhar poeta
que vê beleza no que vês tristeza:
são olhos de mulher-menina
lendo versos de menina-mulher.
No futuro, ao releres teus versos,
compreenderás o que hoje te digo...

A uma menina-poeta.
Sílvia Mota.
Cabo Frio, 25 de abril de 2009- 00:30hs.

inconfundível!

pela voz e a pena de um poeta,
nomes são meros nomes,
fatos são meros fatos,
verdades podem ser mentiras,
mentiras podem ser verdades...
mas... fantasias serão sempre FANTASIAS!

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2009 – 10:20hs.

índia virgem brasileira

Sou pura
e linda
e doce
e livre...
Meu seio firme
se retesa
nas ondas do mar...
Meu corpo vermelho
se esverdeia
ao contato da relva...
Minha boca se rega
ao gosto das frutas...
Minhas pernas torneadas
apostam corrida
com o vento...
Sou livre...
Sou linda...
Sou pura...

Ao longe,
os deuses do mar
apontam...
Velas brancas
acenam
e anunciam a paz...
Chegam.
Invadem.
Assustam.
Seduzem.
Encanto-me naquele vestir
e encanto pela nudez...
Liberdade?
Beleza?
Pureza?
Para onde vão?...
Desvirginam a pureza da terra
e devoram-me virgem.
Impiedosos.
Brancos.
Frios.
Pelos vis metais,
meu sangue escorre
entre as pernas...

Minha beleza se esconde
nas asas das arapongas,
minha voz dolente
cala nos uirapurus,
minhas feridas sujas
magoam os rouxinóis,
minha doçura aviltada
azeda o mel...
Maldita lua!
Funesto sol!
Sinistras estrelas!
Execráveis montanhas!
Todos e todas omissos!
Não ouvem meu temor,
nem meu gemido,
nem meu asco...
ignoram minha dor!
Ah! Mãe-natureza,
és conivente!
Pindorama!
Ilha de Vera Cruz!
Terra Nova!
Terra dos Papagaios!
Terra de Vera Cruz!
Terra de Santa Cruz!
Terra de Santa Cruz do Brasil!
Terra do Brasil!
Brasil!
Do passado ao presente,
na minha terra, sou coisa-prazer...
mas nos céus - índia -
brilho no Cruzeiro do Sul
e ainda sou pura!

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 19 de abril de 2009 – 23:55hs.
Dedico este poema a todas as índias brasileiras, do passado ao presente, esperando que no futuro tudo seja diferente.
Dia do índio - 19 de abril.

sorte ímpia

menina de rua,
sem lua,
tão nua
de paz!

menina vadia,
sem dia,
vazia
se faz!

menina, perdoa:
sou fraca
e omissa
em ti.


Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 18 de abril de 2009 – 21:55hs.

desabafo satírico

ainda que assim o desejes
- pois te doem -
não farei dos meus poemas
o pranto,
a dor,
o desamor
e o fim...

ainda que assim não o desejes
- pois sou pura -
farei dos meus poemas
o gozo,
a paz,
o amor
sem fim.

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 18 de abril de 2009 – 21:12hs.
Dedico este poema a todos aqueles que nunca conseguirão enxergar - porque cegos, neste sentido - a pureza da arte, sob qualquer expressão.

é só um pedido de desculpas...

falha minha...
foi a pronúncia...
de tão longe que estou,
de hino, chegou aqui: índio...
índio... lembra alguém nu
alguém nu...
lembra e relembra
homem nu...
em mim...

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 13 de abril de 2009 - 21:12hs.

ahnn!!! essa cor de carnaval!

sob o calor desse sol
minha pele se fantasia
de uma cor multicor de bombom...
mas... é como o Carnaval...
logo acaba...

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 4 de março de 2009 - noite.

Ah! Búzios

nesse recanto o meu canto é de sereia
e a natureza se desdobra em encanto
de beleza e sedução!

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 4 de abril de 2009 - noite.

cantos e encantos

meus cantos são encantos:
cantos da mulher-amor-paixão
e encantos da mulher-sedução;
cantos da mulher-paz-fé
e encantos da mulher-madura...

meus cantos são encantos:
domínio de um acatastático
- mas apaixonante - destino.

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 29 de março de 2009.
Reformulação de frase escrita em 2007.

rosa ou azul?

o primeiro botão do meu jardim
nem chorou, nem sorriu, nem viveu
e se foi...

Poetrix.
Sílvia Mota.
Cabo Frio, 13 de março de 2009 - 11:05hs .

sou poeta?

assumo ser poeta
e crivado de amargura
e desencanto
meu eu lírico
se constrói
e destrói
na concretude estéril
do desejo

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 2009 – 00:48hs.

por favor, salva um poeta!

Não deves obstruir jamais
a lírica de um poeta:
matarás pouco a pouco,
a magia interior,
que na expressão do belo,
contigo compartilha
nos seus momentos
de solitude.

Ah!!! o poeta!!!
amenamente apaixonado,
possui o dom de transformar
qualquer palavra em verdade:
nasce e morre todo dia!

Não deves obstruir jamais
a lírica de um poeta:
a poesia sucumbirá
e se perderá o amor
nos caminhos desatinados
dos destinos.

Não deves obstruir jamais
a lírica de um poeta:
perderá, a poesia,
perderá, a vida
perderá, o mundo
perderemos, nós.

Não deves obstruir jamais
a lírica dos poetas:
sem poesia e sem amor
viver, talvez seja morrer!

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 29 de novembro de 2007 - 16hs.

Mas, afinal, quid amor? - Tu me perguntas sempre...

Que coisa é o amor?
Pode nascer no crisol de um olhar
e asilado na palavra
espargir por alma afora...

Pode ser jazigo raso
ou um pélago profundo.

Pode ser sorriso em dor
ou talvez choro em sorriso.

Pode ser noite de chuva
ou alvorada de sol.

Pode ser borrasca temível
ou orvalho numa flor.

Pode ser um carro novo
ou pé descalço na estrada.

Pode ser lamento triste
ou brado em lança de herói.

Pode ser medo e coragem
ou a paz em oração.

Pode ser réu e juiz
ou a justiça sem lei.

Pode ser palavra doída
ou sorriso de perdão.

Pode ser beijo na alcova
ou soluço frente à morte.

Pode ser lajota fria
ou um páramo estrelado.

Pode ser cincho eternal
enlaçando Vida e Morte.

Pode ser soneto inteiro
ou adágio estilhaçado.

Pode conter-se num verso
ou transcender o Universo.

Pode ser eu em teu braço
ou teu braço em meu abraço...

Mas, afinal, me pergunto:
amor omnia vinciti?
E me respondo: talvez...
____________________________________
quid amor? = que coisa é o amor?
amor omnia vinciti? = o amor vence tudo?

Uma pergunta ecoa no ar, sempre: - "O que é o amor?” - Nunca me atrevi a respondê-la, talvez porque seja uma pergunta impossível de ser respondida... Mas, a insistência dessa inquirição me provoca e, afoita como qualquer poeta, deslizo meus pensamentos para o papel, na tentativa de decifrar o indecifrável. Este poema ficará aberto, para que eu o modifique ou o amplie, a cada dia que aprender algo diferente a respeito dessa virtude que transforma o mundo e as pessoas... E, a depender de mim, renovar-se-á, sempre...

Sílvia Mota.
Cabo Frio, 26 de setembro de 2007 - 16:25hs.

Vida cigana: o Céu é meu teto, a Terra é minha pátria e a Liberdade é minha religião

Abrir os olhos para um céu eterno e imutável,
calcando os pés em terras diferentes.
A cada dia um novo horizonte,
que deixa, à ventania sem dono, os cabelos longos,
encaracolados de sonhos.
A cada momento, um novo desafio,
que desafoga a viril energia
a correr pelos campos estrangeiros.
Dormir ao relento, na calada da noite,
eternizando-se nas asas da liberdade enluarada.
Riqueza dourada
de pontes de ouro sorridentes,
engaioladas em dentes brancos de bocas sedutoras.

Minha idade criança,
contida num medo e desejo incontidos
de ser roubada,
arrastada,
de corpo e alma,
de amor e paixão,
para aquele mundo alegre,
de dança de roda e encanto de flor...
Roupa cigana,
canto cigano,
jeito novo de chegar
espalhando sedução
e de roubar os corações, num instante,
para depois, de repente, ir embora,
sem fornecer rastros
de endereços,
nem e-mails...

Nômades,
ricos de liberdade e de afeto,
de moral peculiar,
de cultura e de costumes,
de leis editadas ao tempo
e de honra cravada na vida.
Nômades,
com fé na esperança e nos deuses
das raízes do seu povo...
Nômades,
cada dia num chão
e para cada chão,
um mapa bordado no coração.
Ciganos e ciganas.
Liberdade:
inexplicável e incontrolável aspiração
da natureza humana.

Poema escrito, especialmente, para constar em uma questão de prova realizada para avaliação da disciplina Introdução ao Estudo do Direito I - da Universidade Veiga de Almeida, Campus Cabo Frio, no segundo semestre de 2005. Homenagem a uma turma muito querida.

Aos meus lindos e queridos filhos Arnóbio, Gabriel e Rafael

Desejo-lhes um dia feliz.
Desafiem jogos fantásticos na alegria e brincadeira,
relembrando os doces folguedos
do pique-esconde de outrora.

Desejo-lhes um dia eterno.
Burlem nele a finitude inerente ao ser humano,
através da honestidade,
matéria-prima do viver em paz.

Desejo-lhes um dia de esperança.
Espanquem os medos intimidadores da vitória,
com a mesma bravura da inocente infância,
que sempre me encantou...

Desejo-lhes um dia de fé.
Ignorem os descompromissos com a verdade
inerente a cada um de nós,
procurando a felicidade na sua própria essência.

Desejo-lhes um dia de sonhos.
Sonhem sem fugir da realidade,
abrindo-se para recolher no abraço as mulheres amadas,
num pacto de alegria e fidelidade...

Desejo-lhes um dia de crescimento.
Não se contaminem na arrogância do poder,
mantendo-se verdadeiros e íntegros nas suas decisões,
dignos representantes de um sábio viver.

Desejo-lhes um dia de amor.
Não se filiem, meus filhos, ao desamor,
ignorando o culto do amar, por medo do sofrer depois,
pois não serão HOMENS ao rejeitarem o amor em toda a plenitude.

Desejo-lhes, finalmente,
que nenhum fugaz momento,
entristeça o fulgor deste dia.

Meu carinho, minha adoração.
Sua Mãe,
Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2003.

únicos verdadeiros amores da minha vida

Hoje, filhotes airosos,
sinto saudade dorida
dos seus cachinhos formosos
que me enfeitaram a vida!

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 9 de agosto de 2003.

a Vida e a Morte

A Vida
Adolescente encantadora,
esconde a malvadez
atrás dos seios redondos,
empinados...
Seduz, conquista,
emboçala,
e se revela
traidora...

A Morte
Estranha criatura,
exibe o enredo da sua intrepidez
e do eterno império...
Subjuga e maltrata,
dilacera,
assusta,
mas - verdadeira -
não falha.

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, final de 2002 ou início de 2003...

epitáfio

A dois monstros temo e emudeço: a Morte e o Amor!

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 2002.

papai

estou com saudades...
Ouvindo esta valsa - Rapaziada do Braz – a sua preferida,
sinto-me compelida a transcrever-lhe em versos
o meu sentimento por você.

Sabe, papai, conheci na minha infância
a estória do Gigante Adormecido da Guanabara,
lida nos meus primeiros livros, ainda no primário,
no Grupo Escolar Antônio João.
Segundo a lenda, aquele homem colossal, tão nobre e justo,
que povoou meus devaneios de menina,
um dia adoeceu e, o Criador, condoído,
ao invés de levá-lo para junto de si,
adormeceu-o para sempre na Baía da Guanabara,
ao lado de todos que o amavam.

Aquele homem lindo e protetor, fixou-se na minha adolescência,
levando-me a procurá-lo em cada jovem que de mim se aproximasse...
Aquele ser humano realizado, audaz, honesto, alegre e feliz,
ao me tornar mulher, tentei arremedar,
pretendendo ser exemplo a cada filho meu...

Por mais excêntrico que lhe pareça
a um primeiro olhar,
aquela inocente estória passou a fazer parte da minha própria história!

Inigualável a emoção sentida ao vê-lo, pela primeira vez,
destacado das minhas fantasias, nos idos de 70.
No último andar de um prédio na Praça Sans Peña, no Rio de Janeiro,
no Curso Miguel Couto - Pré-Vestibular,
meus colegas não conseguiram vê-lo,
nem entender o por quê daquela emoção tamanha
estampada nos olhos que enxergavam o contorno nem por todos visualizado.
Como desconhecer o que se tem na frente do olhar,
se me bastava, apenas, para alcançá-lo, estender as mãos?..
Daí em diante, já que o ignoravam e eu o amava tanto,
tomei-o por meu:
“Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo...”

E o tempo passou...

Muitos anos depois, na Barra da Tijuca, reencontrei meu Gigante Adormecido.
Desfrutávamos então o mesmo recanto geográfico.
Embora, desta vez, envolvidos pela encantada insânia,
meus filhos não conseguiram enxergá-lo na penumbra do cair da tarde...
Mas, embora desconhecido, passou a ser chamado:
“O Gigante da Mamãe!”

Mais uma vez o tempo correu...

Transformei-me em professora, na vida que tanto me ensinou...
Certa feita, em sala de aula, pelas vidraças,
exsurgiu meu Gigante Adormecido,
sempre belo e mudo...
O coração pulsou e, imediatamente, no enredo da aula,
anexei as palavras conhecidas na minha infância.
Mais uma vez, todos se emocionaram junto a mim
e dali para a frente passaram a repetir:
“Olha lá, o Gigante da Professora Sílvia Mota!”

Desde então, faz parte dos meus ensinamentos,
a ficção de outrora,
conhecimento ingênuo adquirido nos primeiros livros, ainda no primário...

Você não sabe, papai, mas em cada homem que trilhou na minha vida,
busquei Meu Gigante! Impávido colosso!
Alguns se fizeram parecidos em momentos fugazes...

E o tempo continuou passando...

Um dia, papai, numa madrugada de setembro, você partiu...
- até no momento de ir embora você nos ofereceu as flores da primavera -
e, enquanto o dia amanhecia, relembrei nosso passado...

No embalo da sua sedução deixei-me levar tantas vezes...
O primeiro corte dos longos e cacheados cabelos negros,
ainda tão menina, você conseguiu,
ao traduzir em palavras o quanto ficaria linda e livre ao sabor do vento!
Nos seus braços, papai, dancei a primeira valsa
e no seu sorriso inigualável descobri meu primeiro amor.
Sua elegância, rigidez na conduta,
seu caráter... e seu amor pela mamãe,
fizeram-no o homem mais bonito de toda a minha vida!
Minha infância e adolescência foram pautadas
nas músicas que você compunha, no som do seu piston...
E foi no seu olhar que descobri o azul
jamais encontrado em nenhuma das minhas palhetas.

Como ficava bravo diante dos meus pensamentos amorosos!
Os pretendentes (quantos inocentes!), jamais desafiavam sua presença.
E, os mais afoitos, precisavam demonstrar muita inteligência,
para merecer o olhar de sua filha... a pretinha do papai...

Seu olhar e seu discurso...
Em cada momento, uma nova emoção!
Despertei a vaidade feminina
desfilando na sua frente roupinhas e penteados novos...
E, embora instigando-o sempre,
jamais consegui arrancar-lhe frase diferente dos lábios apaixonados:
“Linda, muito linda! Mas não tão linda quanto sua mãe!”
Naquele concurso de beleza realizado no Elefante Branco,
quando, aos 16 anos, não me concederam o primeiro lugar,
sentiu-se você injustiçado,
dizendo mais tarde aos colegas aposentados, na Praça da Bandeira:
"As passarelas da minha filha, daqui para a frente, serão as ruas de Piquete!"
Nas eleições do Colégio Guimarães Rosa, na década de 60,
quando, entre tantos meninos, alcei a posição de presidente do
Grêmio Literário Assis Chateaubriand,
ao sentir minha emoção, você disse:
“Guarde suas lágrimas para quando entrar na Faculdade".
Acrescentando a seguir:
"Chore somente de felicidade!”
Mais tarde, com os olhos marejados de lágrimas,
antevendo os resultados da minha inexperiência
ao escolher o primeiro amado, ouvi o seu sinal de alerta:
“Você precisa de um homem que faça você,
não um homem que seja feito por você!”

Tantas frases descuidadas e doridas também pronunciou
- afinal, você é falível, papai! -
e que ficaram guardadas no meu coração,
como referencial de vida, para sempre... e sem mágoas...

Mas... o que tem a ver você com aquela lenda que permeia
a Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro
e encanta minha vida desde a mais tenra idade,
quando ainda corria pelas ruas
de Piquete, a Cidade Paisagem?

Ah, Papai!
Olhando-o sereno, no leito exequial,
percebi que a imagem do Gigante Adormecido da Guanabara,
transmutou-se constantemente no meu sonho sonhado,
no meu amor procurado,
na minha intrepidez e honestidade decantadas,
na Pátria Brasil desejada, repleta de titãs...
sem me aperceber de que era, o tempo todo,
reflexo de você na minha vida!

Tal o Gigante da linda narrativa que repassarei enquanto tiver voz para fazê-lo,
você não morreu... porque um herói não morre... apenas adormece!
E, quando a saudade apertar, fitarei com orgulho, na paisagem,
o Gigante Adormecido da Guanabara,
- meu doce papai, meu eterno namorado -
adormecido bem perto de mim, cá bem dentro de mim acordado...
sublime delírio eternizado nas fontes da minh'alma!

Sílvia Mota.

A vida do meu papai - herói da Segunda Guerra Mundial - adormeceu, nesta existência, na madrugada do dia 22 de setembro de 2002, aos oitenta e seis anos de ida

Doce e saudoso momento...

O entardecer na roça;
o milho debulhado às cocoricós;
o medo do rastro de cobra nos caminhos;
os porcos gritando, como gente,
ao serem assassinados;
o cigarro de palha na boca do roceiro;
o violão mal tocado que encantava;
o rio sujo e a Luiza, às suas margens,
com a roupa enfiada nas pernas,
sedutoramente,
cantando Only You, em voz tremida;
os índios da imaginação habitando as verdes colinas;
os arcos e flechas construídos por meu pai;
as festas montadas pela minha mãe...

E no meio desse encantamento todo,
a vida do meu irmão caçula que se iniciava,
linda e curiosa,
nos braços aconchegantes
da irmã primeira...

Sílvia Mota
Rio de Janeiro, [em 27 dez 2002].

Mãe

Quando jovem escrevi um poema para você,
do qual não me recordo com precisão os versos...
Lembro-me, apenas, ter construído,
a partir daquela pureza adolescente,
uma declaração de amor ao sentimento de amor
extravasado continuamente dos seus poros.
Exaltei-lhe a face, o sorriso, as palavras
e tudo quanto exsurgia diante dos meus olhos
a se plantar robusto na minh'alma...
Com aquele poema, angariei um prêmio oferecido
aos jovens estudantes da região.
Mas, pergunto-me,
se foi a cadência lingüística
ou o amor ali descrito,
a verdadeira razão daquela vitória...
Em realidade, isso pouco importa agora,
não obstante interesse sobrevivam, insignes,
o amor, o respeito e a admiração ali descritos,
arraigados na minha vida.

Você, Mamãe, ao invés de tão somente
fazer morada no meu coração,
dele fez seu domicílio eterno e inextinguível...

No meu pensar a respeito de você,
diviso serem as estrelas das noites ineptas
para enunciar suas bondades;
as águas dos oceanos insuficientes
para asfixiar sua fé inquebrantável
e as montanhas que ladeiam nossas terras
quedam-se anemizadas
ante o verdor da esperança, contagiante,
expressada nos seus gestos de patriotismo.
Ao pensar em você, minha Mãe,
confundo gata e leoa, mansa e feroz,
no carinho ou defesa dos seus filhotes...
Ao ambicionar ser você, Mãe poeta,
perco-me nas raias do simples arremedo
e, ao ensejo de ser educadora,
arruíno-me num confronto às palavras,
pois não cultivei a abnegação e a benevolência
naturais das suas atitudes.
Ao cobiçar ser você, Mãe amante atraente,
não ultrapasso a falível paixão
e, ao desejar ser pura,
só consigo entregar-me
aos prazeres da carne mais profundos.
Não me foi exeqüível, até o momento,
desenovelar os limites
da minha incapacidade de ser assim
- cabalmente humana -
como você, minha Mãe!

Engraçado...
Ainda hoje, estorvo-me,
ao procurar vocábulos ou expressões
suficientes para definir você
e, nestes momentos de inaptidão reconhecida,
restrinjo-me a ser a menina-moça de outrora,
quando encerrou assim o seu poema:

"Minha Mãe é o ser imarcescível
que descrevo nestas simples linhas.
Seu amor é tão grande, imensurável,
que já não cabe nestas frases minhas."

Felicidades, mamãe!!!
Um beijo carinhoso da filha,
Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 13 maio 2001.
[Homenagem realizada no Dia das Mães]

Mamonas assassinas

Meninos, as bolinhas de gude
voltaram para o céu,
o canto da noite acordou
e o dia adormeceu.

Meninos, a Brasília Amarela
vira virou dourada
e caiu no sonho
do eterno sono.

Meninos de lá,
os de cá secaram o canto
e se requebram no vaivém
do pranto.

Meninos cometas,
limpem o hálito adormecido
nas estrelas,
refaçam as malas
urgente
e não demorem.

Retornem!

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, 4 de março de 1996.

Banzo por Piquete - "Cidade Paisagem"

Minha terra - sem palmeiras -
exibe mil bambuzais,
que ao som do vento balançam.

Ao reclinar sobre o leito
minha face envelhecida,
chupo canção de amora
nas palavras florestais
vindas no canto brejeiro
desse pequeno sabiá.

Subo essa vida pequena
pela goiabeira da Vida
e, na pontinha dos pés,
enxergo tudo que alcanço,
bem na avidez dessa infância,
que no final da fronteira,
feita de sol e de céu,
de neblina ou cerração,
jamais será transportada
dos limites da ilusão.

Minha terra - sem palmeiras -
minha terra - sem limites -
minha terra - tem perdão -
pois eu fugi da sua força,
que me detinha em prisão.
Minha terra - era preciso -
procurar sonho de vida,
aprisionado na Vida,
num engodo do destino,
longe dessa proteção.

Minha terra - era preciso -
sacudir toda essa infância,
grudada,
teimosa,
insana,
na paisagem do fadário
e, deixá-la descansando,
no seu berço visceral.

Minha terra - hoje choro -
o choro da despedida,
que só você me entregou
nas estradas percorridas
no rumo à libertação.

Minha terra - hoje choro -
com saudades das esquinas,
da rua de baixo e a de cima,
do parque, do bangalô,
das retretas aos domingos,
do portão da minha casa,
donde jamais consegui,
em lugar nenhum do mundo,
sentir-me tão protegida.

Minha terra - hoje confesso -
descalçada de pureza,
agarrada na esperança
e, perdida, tal a criança,
que num dia lhe machucou,
ter, jamais, nunca entendido,
qual o segredo afinado
desse som inexplicável,
desse vai e vem incessante
do vento dançando forte,
nesta terra, sem palmeiras,
onde canta o bambuzal.

Minha terra - sem limites -
é cercada, toda inteira,
pela Serra Mantiqueira.


Rio de Janeiro, 1993.
Dedicado a: A Piquete - "Cidade Paisagem", linda terra onde nasci, escondida, por entre montanhas e flores, num recanto do Vale do Paraíba...

mendiga

Apanha a migalha
ali naquele canto...
Não!.. Aí, não!..
Atrás daquele sonho,
vamos... apanha!

É pequena demais?
- NÃO IMPORTA!
Apanha-a logo,
antes que a levem também!

Apanha a migalha,
tritura-a bem nos dentes,
devagar... aproveita-a bastante...

Se é só o que conseguiste,
delicia-te muito!..

Um dia, a realidade compreenderá
e, num orgasmo total,
os sonhos te oferecerão a VIDA!

Sílvia Mota.
Rio de Janeiro, madrugada... [197?] ou [198?]